Em um gesto potente de resistência, memória e esperança, o cantor e compositor Chico César se reuniu a uma rede de artistas, ativistas e comunidades tradicionais para lançar “Caatinga Viva”, uma canção manifesto que transcende a arte e se torna um chamado urgente pela preservação do único bioma exclusivamente brasileiro: a Caatinga.
Lançada nesta semana, a música é acompanhada por um vídeo-documentário filmado em regiões emblemáticas do Piauí — como o semiárido de São Raimundo Nonato, o Parque Nacional da Serra da Capivara e comunidades quilombolas e indígenas do sertão —, onde a paisagem árida revela, em cada fenda da terra e no olhar dos moradores, uma riqueza que desafia estereótipos: a força da vida que persiste mesmo sob o sol mais inclemente.
“Não é um bioma pobre, é um bioma sábio”, afirma Chico César na abertura do clipe, enquanto imagens em drone mostram os cânions avermelhados, os cactos floridos após as primeiras chuvas e crianças brincando à sombra de uma umburana. A letra, poética e política ao mesmo tempo, fala de secas, mas também de sementes — as que são plantadas na terra e as que são cultivadas na memória coletiva.
Além de Chico, participam do projeto vozes de diferentes gerações e origens: músicos da nova cena do forró experimental, mestres da ciranda e do repente, anciãs que guardam cantigas de roda em língua pankararu, e jovens ativistas ambientais que usam as redes sociais para denunciar o desmatamento e celebrar os saberes tradicionais.
O vídeo foi produzido de forma colaborativa, com direção coletiva e imagens captadas por cinegrafistas locais — alguns, inclusive, moradores de assentamentos de reforma agrária. “A ideia era que a Caatinga se contasse por si mesma”, explica a produtora cultural Luísa Alencar, uma das coordenadoras da iniciativa. “Não queríamos um olhar de fora, mas uma escuta profunda — do vento, das histórias, do silêncio que também fala.”
A canção já está disponível nas principais plataformas digitais, e parte da arrecadação com streaming será destinada a projetos de reflorestamento com espécies nativas e à formação de agentes agroflorestais em comunidades rurais do Nordeste.
Num momento em que o bioma sofre com o avanço do desmatamento — segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Caatinga (PMCaatinga), o bioma perdeu mais de 1,3 mil km² de vegetação nativa só em 2024 —, “Caatinga Viva” chega como um abraço sonoro ao sertão: não para romantizá-lo, mas para lembrar que, enquanto houver quem cante, quem plante e quem resista, ele seguirá pulsando.
Fonte: Cidade Verde (https://cidadeverde.com/noticias/445415/chico-cesar-e-artistas-lancam-cancao-manifesto-da-caatinga-com-imagens-do-piaui)
Créditos das imagens: Arquivo pessoal dos realizadores / Acervo Coletivo Sertão Voz / Fotografias de Manoel Costa e Juliana Alves (cedidas para uso jornalístico com autorização)
